Projeto concebido originalmente para a área de Ideias do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) Brasília, Mitos do Teatro Brasileiro é calcado na memória das artes cênicas nacionais.

domingo, 19 de maio de 2013

Criador de gente

Dias Gomes e a revolução das telenovelas // Crédito Arquivo Rede Glo


Nas novelas, Dias Gomes conquistou o país com tipos brasileiros. Comunista desde a juventude, autor foi perseguido trama a trama

SÉRGIO MAGGIO

Dias Gomes sonhava em viver de teatro. Mas a ditadura militar o acossou. A censura perseguia cada linha do texto. Por conta de suas ligações com o Partido Comunista, respondia a inúmeros inquéritos. A situação financeira era delicada. Quem sustentava a casa era a mulher, Janete Clair, que escrevia novelas na TV Globo com relativo sucesso, sucedendo a era de folhetins importados, comandados pela cubana Gloria Magadan. Não havia saída. O caminho era mesmo escrever novelas e enfrentar o patrulhamento ideológico e feroz da esquerda. Afinal, a televisão era tida como um meio alienante e aliado ao sistema.
— Arrebanhei minhas personagens, meu pequeno universo, e, como quem muda de casa, mas conserva a mobília, lancei-me a aventura, contava Dias.
Com a utopia de um teatro popular como lastro, Dias Gomes foi alterando as regras do jogo na tevê brasileira. A revolução da teledramaturgia que ocorrerá nos anos 1970 está diretamente ligada ao seu repertório. O bicheiro Tucão, de Bandeira 2, o prefeito Odorico Paraguaçu, de O bem-amado, o homem de asas João Gibão, de Saramandaia. Eles saíram todos do imaginário popular, que já havia feito uma transformação no palco nacional. Agora, provocava uma identificação imediata com o telespectador, que se agarrava a telinha, chegando a dar 100% de audiência.
As novelas de Dias Gomes não faziam o jogo político do conformismo. Volta e meia, ele era intimado a depor, sobretudo, por conta da fama de comunista. A proibição da primeira versão de Roque Santeiro, programada para 1975, tem a ver com esse passado. Sem saber que o telefone estava grampeado, Dias Gomes revelou, ironicamente, que a novela era a adaptação de O berço do herói, peça odiada pelos militares e que, em formato novelístico, passaria despercebida, já que os censores eram seres afamados pela inteligência restrita. Resultado: a novela foi proibida no dia da estreia, com a TV Globo enfrentando a ditadura ao convocar o apresentador Cid Moreira para ler editorial ao vivo ao fim do Jornal Nacional. Roque Santeiro voltaria em 1986 para se tornar um dos fenômenos da tevê brasileira.
     
Comunista de fato

Dias Gomes sonhou com um Brasil de justiça social, repartição de bens e acesso à terra. Essa raiz está na juventude quando observava os movimentos estourarem em busca de uma nação sem coronéis. A sua filiação ao Partido Comunista se deu por pura ideologia, e o teatro passou a ser o maior laboratório dessa revolução. Como intelectual de esquerda, chegou a visitar Cuba pós-revolução e ir a União Soviética em plena Guerra Fria. O suficiente para entrar numa lista de procurados quando o golpe militar foi instaurado em 1964. Chegou a ficar escondido de casa em casa e viu, seguidamente, ter os seus textos picotados em pedaços.   
A decepção com a esquerda comunista veio seguidamente. Primeiro, com a divulgação do Relatório Krushev, que denunciava os crimes de Stálin.
— As primeiras notícias eram imprecisas e nos deixavam confusos. Por fim, o relatório completo que nos nocauteou a todos. Parecia inacreditável. Haviam-me feito acreditar na integridade de um regime capaz de abrigar um monstro. E esse monstro era o “Pai” Stalin.
A desfiliação ao partido ocorreu naturalmente no começo dos anos 1970. Poderia ter ocorrido antes. Dias Gomes não quis se desvincular para não parecer pressão da censura. Após, quase 30 anos de militância, tranquilamente, o autor chegava à conclusão que não era o militante que o partido desejara.

— Certa vez, numa entrevista defini-me como anarco-marxista-ecumênico-sensual. Conservando ainda os mesmos ideai que me haviam levado ao partido, era obrigado a reconhecer que nunca me ajustara à disciplina partidária, que ela me incomodava e me tolhia.

GALERIA DE TIPOS:

Bicheiro Tucão O bicheiro de Bandeira 2 foi uma criação ousada de Dias Gomes para o começo da revolução das telenovelas brasileiras. A TV Globo queria que o papel fosse do astro Sergio Cardoso, cujo contrato permitia tudo, até reescrever o texto. Sergio leu alguns capítulos e renegou o papel, alegando que não estava à sua altura. O impasse fez com que Dias Gomes ameaçasse sair da TV Globo caso o intérprete se arrependesse. O assunto foi parar na cúpula da TV Globo, e Dias sugeriu o nome de Paulo Gracindo, até então sem o respeito devido na profissão. Foi um estouro.     

Odorico Paraguaçu — 


Procópio Ferreira tinha vivido sem sucesso Odorico no teatro. A adaptação para a tevê foi um desafio e uma recriação. Coube a Paulo Gracindo, ator preferido de Dias Gomes, dar a embocadura ao tipo que virou a cara do mau político brasileiro. O personagem, vivo no imaginário do brasileiro, é sucesso hoje nas redes sociais. 

Viúva Porcina — 




 Dias Gomes inspirou-se em mulher que conheceu na época que morava em pensões no Rio. Regina Duarte, que fez a segunda versão, era uma atriz querida por ele. Na década de 1960, ele tentou emplacá-la como Branca Dias, de O santo inquérito, mas o diretor Ziembinski, por preconceito, vetou o nome da então jovem atriz. A personagem promoveu guinada na carreira da intérprete, tida até então como A Namoradinha do Brasil.  

João Gibão — 



O protagonista de Saramandaia tinha asas que precisavam ser aparadas para ele não voar. Era uma metáfora potente em tempos de ditadura, torturas, mortes e exílios. Dias Gomes sofreu patrulhamento intelectual, que o acusou em copiar o estilo do realismo fantástico em moda na época na América do Sul. Havia, porém, traços fortes desse gênero desde cedo em sua obra. A própria promessa de Zé do Burro era absurda e o mote eleitoreiro de Odorico (em construir um cemitério), surreal.

Zé do Burro — O personagem, protagonista de O pagador de promessas, seria inspirado numa promessa que a mãe de Dias Gomes, dona Alice, fez para que seu filho Guilherme passasse em medicina. Ela jurou assistir à missa em cada igreja de Salvador. O que parecia uma loucura, já que a capital baiana tem fama de ter uma igreja para cada dia. A peça era para ser feita pelo Teatro dos Sete, de Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Gianni Rato, Sergio Britto e Ítalo Rossi, mas a demora fez com que Dias procurasse Franco Zampari, que quis produzir imediatamente no TBC. Dias conta que Fernanda Montenegro teria ficado chateada. E, tempos depois, dito, num evento social: “Dias, você nos traiu.” Zé do Burro foi imortalizado no cinema, e no teatro, por Leonardo Villar.    






     Alegria e
tristeza

O pagador de promessas, o filme, satisfez plenamente Dias Gomes. Anselmo Duarte respeitou a peça, e Dias participou até das escolhas das locações. O mesmo não ocorreu com a minissérie que foi ao ar na TV Globo em 1988. Por pressão da bancada ruralista, 10 capítulos foram censurados e obra perdeu uma forte crítica à questão da terra. A peça, que foi encenada em vários países do mundo, é obra-prima de Dias Gomes.   

O bem-amado






Dias Gomes: obra influencia até os dias de hoje // Crédito //  Arquivo Rede Globo


Viva e atemporal, a obra de Dias Gomes, um dos responsáveis por abrasileira o teatro nacional, é legado que resiste ao tempo. Ainda neste semestre, a TV Globo reedita Saramandaia

Sérgio Maggio
Especial para o Correio

A madrugada de 18 de maio de 1999 foi cruel com a dramaturgia nacional. Um acidente brutal interrompeu a escrita de um homem que estava na linha de frente de uma geração que abrasileirou peças, novelas e filmes. Tinha 76 anos quando teve a vida engolfada por uma estúpida imprudência de trânsito. No choque mortal com o ônibus, perdeu-se a genialidade de Dias Gomes, cuja escrita de traço universal ainda pulsa e reverbera. Ainda neste semestre, a TV Globo remonta um dos maiores sucessos: Saramandaia, a novela assentada no realismo fantástico sul-americano, que alegrou um triste Brasil de 1976. Em plena ditadura militar, o espectador arregalou os olhos para testemunhar João Gibão voar, livre como um pássaro fora da gaiola, sobre uma cidade dominada por coronéis, que colocavam formigas pelas narinas. Parecia um sonho, como, aliás, foi movida a trajetória desse autor sem fronteiras de linguagem.
— Consigo pilotar meu barco ao sabor dos ventos, mas sei que há muito mar pela frente. Talvez nunca chegue ao porto. Tomara mesmo que não, pois o melhor da viagem é estar nela, escreveu Dias Gomes na autobiografia Apenas um subversivo, publicada um ano antes da morte.
Dias Gomes era um menino quando chegou ao Rio de Janeiro num esquisito tempo de entre guerras. Cresceu num o país vigiado pela ditadura getulista. Ali, em 1942, a cabeça fervilhava de ideias, algumas politicamente perigosas para a época. Mesmo sem querer pegar em armas, o rapazote corria riscos. Queria fazer teatro. Não sabia ainda que a dramaturgia seria a munição para o incômodo que estaria por vir. Dias Gomes se tornaria um dos mais censurados autores do país.
Nesse ano incerto de 1942, o jovem andava pelo burburinho cultural da Cinelândia e sonhava ter o nome estampado nos letreiros luminosos. Um dia, respirou fundo e entregou textos para duas figuras míticas da cena nacional: os rivais Jayme Costa e Procópio Ferreira. Os dois ainda trabalhavam como se fossem vedetes tradicionais. Não participavam de ensaios diários, só apareciam às vésperas das estreias para aprender as marcas espaciais do palco e não compreendiam o texto como um todo, dependendo do tradicional Ponto, aquele profissional que soprava o texto da coxia.

 Menos intelectual, Jayme Costa ficou reticente com o primeiro texto entregue por aquele jovem, Amanhã será outro dia. Então, fez um desafio ao rapaz. Pediu para que ele escrevesse uma sátira à peça Deus lhe pague, de Joracy Camargo, o primeiro sucesso teatral genuinamente brasileiro naquela metade de século, protagonizado extraordinariamente pelo desafeto, Procópio Ferreira. Dias Gomes correu e concebeu Pé de cabra. O ator leu e ficou com medo danado de ter problemas com o Departamento de Imprensa e Propaganda, o temido DIP. A peça acabou nas mãos de Procópio. E lógico, foi devidamente censurada. Dez páginas cortadas e o autor taxado de marxista sem nunca ter lido Karl Marx.
— Na noite de estreia, o público aplaudiu de pé quando Procópio me chamou no palco. Houve mesmo um “oh”, quando ele revelou que tinha apenas 19 anos. Talvez, a minha pouca idade para que os críticos não enxergassem os defeitos do meu texto e exagerassem as suas qualidades, escreveu Dias Gomes.

Premonição

Crítico tradicional do jornal Amanhã, Viriato Corrêa não só alardeou aos quatro cantos as maravilhas da montagem como também fez um trocadilho premonitório: “Mais dias menos dias, Dias Gomes será o escritor mais festejado da cena brasileira”. Demoraria quase duas décadas para atestar a previsão. Em 1960, todos estariam aos pés de Dias Gomes com a montagem de O pagador de promessa, produzida pelo Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), até então marcado pelas adaptações de textos internacionais. O espetáculo renderia uma chuva de prêmios para o autor, o diretor Flávio Rangel e o ator Leonardo Villar, como Zé do Burro, que dividia o palco com intérpretes do porte de Cleyde Yáconis, Stênio Garcia e Nathália Timberg.
     — A partir do TBC, O pagador de promessa iniciou vitoriosa carreira em que alcançou unanimidade crítica, tanto no país como no exterior. Lembro-me apenas de um crítico que lhe fez algumas restrições, Bárbara Heliodora.
O sucesso da peça transformou Dias Gomes num autor requisitado. Em 1962, os inquietos artistas do Teatro de Ipanema, comandado por Ivan Albuquerque e Rubens Corrêa, montariam A invasão, no mesmo ano em que O pagador de promessas cumpria a façanha de ganhar a Palma de Ouro, em Cannes. O povo estava virando protagonistas dos palcos e esta, talvez, seja a maior contribuição do autor, num tempo em que era preciso encontrar uma identidade nacional diante da ameaça armada dos militares. O berço do herói e Santo inquérito justificariam a fase frutífera do dramaturgo, que seria abatida pelo censura implacável. A primeira foi interditada às vésperas da estreia, a segunda, reflexo da perseguição, surgiu em forma de parábola quase histórica, ambientada na inquisição católica.
— Iniciava-se um período de trevas. Muitos achavam que não duraria seis meses — mas durou 20 anos. Curiosamente, o teatro foi eleito perigoso inimigo do novo regime. Talvez, porque fossem das casas de espetáculos, das assembleias que aí se realizavam, dos manifestos que delas resultavam que partiam os primeiros protestos contra a ditadura instalada, escreveu Dias Gomes. 

 

terça-feira, 16 de abril de 2013

Cleyde Yáconis, dama de ofício





FOTO: reprodução web
Dama do teatro brasileiro e irmã da mítica Cacilda Becker, atriz deixa legado marcado pelo amor incondicional aos palcos


    SÉRGIO MAGGIO


    Cleyde Yáconis não gostava de multidões. Era avessa às badalações. Reuniões só se fossem de trabalho. Puxou a mãe, dona Alzira, que desmaiava quando estava em ambientes repleto de humanos. A atriz só suportava os olhares alheios se estivesse no silêncio do teatro. Ali, desnudava-se, por inteira, para 300, 600, 5 mil espectadores que fosse. Era um mistério. Subia ao palco e se transformava no caldeirão vivo de pulsões. Quem a acompanhava em cena se modificava junto. Aliás, presenciar essa intérprete em seu ofício era um exercício de conhecimento.  Aprendia-se acompanhando cada gesto e ação de uma das maiores atrizes brasileiras, que morreu ontem aos 89 anos, no Hospital Sírio Libanês (SP), depois de uma vida intensa dedicada, sobretudo, às artes cênicas.
    De sua geração, não há dúvidas, Cleyde Yáconis era dona de um dos mais respeitáveis repertórios que uma atriz pode constituir. Só no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), passou 13 anos experimentando o mais requintado rol de peças mundiais. Foi ali que se descobriu atriz, sem grandes preparações para a noite de estreia. Primeiro acompanhava a irmã, e que irmã, Cacilda Becker, aos ensaios. Depois, passou a tomar conta do guarda-roupa da companhia paulistana, que botou o teatro brasileiro nos trilhos da modernidade. Um dia, a estrela Nidia Lycia precisou se ausentar de um espetáculo e ela se ofereceu para substituí-la. Todos ficaram preocupados.
   —Todo mundo ficou confuso, sem saber o que fazer, e eu, bem irresponsável, falei: Ué, não basta repetir tudo que a Nidia fazia?
A substituta não só repetiu tudo direitinho como deu o seu molho ao personagem, ao ponto do mítico diretor Ziembinski a convidá-la para participar do próximo espetáculo dele, Pega-fogo, protagonizada por Cacilda Becker. O trabalho bem-pago folgava os gastos de Cacilda com a irmã e era uma forma garantida para a menina comprar os seus livros. Até este momento, Cleyde sonhava em ser médica, cientista. Teatro era uma deliciosa brincadeira. Com a irmã, fez ainda a histórica montagem de Maria Stuart, com direção de Ziembinski. 
— Confesso, sempre fiz teatro de um modo totalmente lúdico. Faço teatro como brincadeira.    Se não tiver prazer em fazer da mentira uma verdade, se não estabelecer com o público o pacto de brincarmos juntos, de fazer de conta, o teatro se torna repetitivo e tedioso.
E foi nesse esconde-esconde de personagens que Cleyde Yáconis foi ficando no palco e construindo uma história ímpar. Começou com pequenas participações, passou pelas personagens coadjuvantes até chegar à condição de decidir qual projeto protagonizaria na próxima temporada. Costumava dizer que sempre tinha de dois a três propostas para escolher. A que mais instigava a sua visão humanística era a escolhida.

 — Prefiro representar os autores que mostram o ridículo do ser humano, essa besteirada, essa palhaçada, essa irresponsabilidade que os homens estão fazendo com a Terra. Acho fantástico quando os autores teatrais denunciam isso com humor negro, porque nos atingem integralmente e obrigam o ser humano a rir de si mesmo.

Atriz mítica


 Cleyde Yáconis deu voz a muitos autores. De Shakespeare e Eurípides; Jorge Andrade e Nelson Rodrigues. Construiu uma carreira que passou incólume às tentações televisivas. Ela que viu muitos grandes intérpretes dos palcos trocar as peças por telenovelas, manteve-se firme, visitando produções de quando em quando. A última foi Passione, quando fez a espevitada Brígida. A TV Globo montou uma estrutura especial para ela gravar a novela. No meio da narrativa, caiu e quebrou o fêmur.  O último espetáculo que fez foi O caminho para Meca, em 2008. Mas apareceu ao público, ano passado, numa série de leituras que homenageava Nelson Rodrigues, quando revezou leitura de crônicas com Denise Fraga.
A última passagem de Cleyde Yáconis por Brasília foi em 2003 com Longa jornada dia e noite adentro, clássico de Eugene O’Neill, no palco do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Com direção de Naum Alves de Souza e contracenando com Sergio Britto, a atriz dava vida à aristocrata Mary Cava Tyrone que enlouquecia minuto a minuto, numa atuação magistral que lhe rendeu o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA).  Quem viu levará para sempre essa intérprete na memória.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Mil vidas: Paulo Gracindo

Sérgio Maggio

Pelópidas virou Paulo porque ninguém acertava chamá-lo como o nome de batismo. A gota d’água foi a 
empregada que o chamou de Envelope.

Um dos grandes personagens de Paulo no teatro foi Herodes em Salomé, de Oscar Wilde com direção de Martim Gonçalves. Havia um burburinho na plateia após as sessões. “Que ator é esse?”, referindo-se a Gracindo. “O seu Herodes era extraordinário! Ele se expunha, não tinha medo do ridículo, se atirava, ia com tudo dentro da cena. Parecia que não tinha nada a perder, nunca”, lembra Paulo José.

Um marco na carreira de Paulo Gracindo foi como Pimentel em A falecida, adaptação de Nelson Rodrigues para o cinema por Leon Hirszman. Para convencer Ziembinski a levar Paulo para O santo inquérito, mesmo com a indicação de Dias Gomes, foi preciso levá-lo para ver o filme. “Um trabalho magnífico de Paulo Gracindo”, resumia Ginaldo de Souza, um dos produtores.

Em A falecida, Paulo Gracindo contracenava com uma das patners preferidas, Fernanda Montenegro. “Na hora da ação, entrava um monstro de um ator altamente preparado, qualificado e com uma bagagem de estudo do seu personagem que não vi em nenhum outro ator com quem eu tenha trabalhado na vida”

Na televisão, se cometer um erro, volta atrás e refaz. O teatro é implacável. Você não pode pedir desculpas e voltar atrás de jeito nenhum”

Um dos grandes sucessos de Paulo Gracindo nos palcos foi Brasileiro, profissão: esperança, musical de Paulo Pontes com direção de Bibi Ferreira. Ele dividiu a cena com Clara Nunes.

O gigante Paulo Gracindo


Um dos maiores atores do rádio, teatro, cinema e televisão, Paulo Gracindo ganha livro que refaz a trajetória de um mito centenário
Sérgio Maggio


O eterno Odorico com as Cajazeiras


A tevê não tinha se instituído como o elo de integração nacional, que consolidaria a indústria cultural no Brasil, mas o intérprete e locutor Paulo Gracindo (1911 - 1995) já fazia parte do cotidiano dos brasileiros. Ali, de ouvidos encostados no rádio, ele arrancava lágrimas como Albertinho Limonta, o mocinho da radionovela O direito de nascer, e gargalhadas no papel de o Primo Rico em Balança mas não cai. Já estava traçado aí o caminho para a construção de um mito de ator, amplificado pelo teatro, cinema e televisão.
No ano 1938, o jovem Pelópidas Guimarães Brandão Gracindo já tinha se transformado no comunicador Paulo Gracindo, estrela da Rádio Nacional, testemunha ocular no nascimento de grandes estrelas da MPB. Até chegar ao status de apresentador e ator, empenhou uma luta pessoal contra a tradição familiar. Queria ser ator de teatro, mas o pai, Demócrito, político influente das Alagoas, tinha decretado que se o filho subisse no palco, ele subiria no palco e o arrancava de lá pela gola. Não havia outro jeito. O rapaz predestinado fugiu pro Recife, com a roupa do corpo e o dinheiro no bolso, e foi saciar a sede de liberdade. Meses depois, soube que o pai tinha ficado doente de tristeza. Voltou e o encontrou de coração manso.
— Infelizmente, meu pai não pôde curtir esse novo pai, que faleceu em 1928, quando o filho tinha apenas 17 anos, conta Gracindo Junior no livro Um século de Paulo Gracindo, o eterno bem-amado.
Escrita em parceria com o pesquisador Mauro Alencar, a obra é um registro importantíssimo para proteger a memória de um dos mais importantes intérpretes do Brasil no século 20. Ele que, quando pisou no palco ainda estava no útero da mãe, Argentina, na cerimônia de inauguração do Teatro Deodoro, construído pelo pai, Demócrito Gracindo, à época que era intendente da capital de Alagoas, é um dos protagonistas da nacionalização da dramaturgia brasileira (seja no teatro, no cinema, e na novela), aproximando-se, nos anos 1950 e 1960, de autores como Dias Gomes. Paulo Gracindo estava no elenco de Santo inquérito (1966), marco do teatro nacional, ao lado de Rubens Corrêa, Eva Wilma e Jayme Barcellos, todos sob a direção de Ziembinski.
— A peça teve uma receptividade fantástica e acabou por colocar Dias Gomes no lugar que sempre lhe coube, de grande autor, ele que, na ocasião, tentava sobreviver escrevendo novelas com pseudônimo, amparado pela mulher, Janete Clair, a maior novelista da Rádio Nacional na época. Suas carreiras, a dele e a de Paulo Gracindo, caminharam juntas a partir de O santo inquérito, conta Gracindo Júnior.
Grandes companhias
Com 80 espetáculos, Paulo Gracindo passou por várias escolas teatrais. Começou com Dulcina de Moraes, passou pelas companhias de Alda Garrido, Procópio Ferreira e Elza Gomes, trabalhou com grandes diretores, a exemplo de Martim Gonçalves e Bibi Ferreira.
— Paulo era um grande ator, um grande profissional, mas fez pouco teatro. Minha mágoa é essa, porque Paulo era daqueles que usa o teatro por felicidade, por amar, por gostar. O teatro era o grande amor da vida, defende Bibi Ferreira.
 Foi, aliás, o primeiro ganha-pão, quando perambulava pelo Rio em busca de uma oportunidade nos palcos.
— Como é que um jovem que vem de Maceió estreia no teatro? Era muito complicado. E ele não tinha passado de pais atores, de tios… Não sabia nada da arte de representar, não tinha nenhuma manto sagrado na representação. Ele era apenas um ator. E bonito, com licença, era um homem muito bonito, e ele sabia! E era tomando um cafezinho que ele dizia: Olha o seu Procópio; olha o seu Jaime Costa. E assim ele foi entrando. Foi conquistando as pessoas socialmente que Paulo Gracindo começou a carreira dele no Rio de Janeiro, lembra Bibi.
De figurante a mito celebrizado em todas as linguagens, Paulo Gracindo foi virando uma unanimidade. A construção de tipos brasileiros, vindo, sobretudo, da matriz dramatúrgica de Dias Gomes, o celebrizou. Ícone das telenovelas, o personagem Odorico Paraguaçu (O bem amado) atravessa os dias. A imagem do prefeito populista, corrupto e enrolador ainda permanece como uma metáfora do político brasileiro, mesmo nessa fase de transição das eleições do Ficha Limpa. O bicheiro Tucão (Bandeira 2), o coronel Ramiro Bastos (Gabriela) e o aristocrata decadente Antenor (Os ossos do barão), numa época que a televisão bebia do teatro e da literatura.

Ator no camarim:


 

“Eu não tenho preocupação. Sou uma pessoa que entro frio, mas entro com a consciência do meu personagem. Não tenho essa preocupação de me preparar, entro e vivo o personagem com toda a naturalidade”

“É por isso que sempre estudei muito, precisava estudar pra suprir essa falta de memória. Tenho que insistir no texto. Horas, horas e horas repetindo”

“Sempre me perguntaram se eu fico nervoso a cada estreia. Todos nós ficamos nervosos, pelo respeito à atuação e pelo respeito ao público. A cada público, eu me sinto como um domador a cada leão diferente. O ator aprende todos os dias, ele morre aprendendo. Sempre que você leva  uma peça ao público, você se sente num púlpito mandando a sua mensagem”

“Nós gostamos de nos exibir, porque o público gosta da gente. Essa ansiedade que tenho, de viver muito, extravaso através dos personagens que faço. É maravilhoso você viver muitas vidas. Tenho pena de quem vive uma vida só”

“Eu sempre espero o público. O público jamais esperou de mim”

“Tenho vontade de fazer teatro de Shakespeare. Já está na hora de encerrar minha carreira e eu não fiz Shakespeare, não tive essa oportunidade. Esse é um desafio que não tive
 


   CINCO BEM-AMADOS: 

1 - O povo de Sucupira ficou diante de um prefeito que era a síntese do político brasileiro nos anos 1970, na novela O bem-amado, de Dias Gomes. Corrupto, enrolador, malandro, carismático e dono de um português próprio, Odorico Paraguaçu até hoje é um ícone da teledramaturgia. 

ODORICO — É incrível que está cidade mui justamente chamada, apelidada e, por não dizer, cognominada “a pérola do norte” (…) ainda não tenha um lugar para enterrar os seus mortos.  

2 - O bicheiro Tucão, de Bandeira 2, de Dias Gomes, trouxe um Paulo Gracindo mais solto, mais brasileiro, diferente dos tipos que estava fazendo sob a batuta da cubana Glória Magadan. O ator dominou a novela de ponta a ponta e, nas ruas, só se falavam em Tucão.


TUCÂO — Misturar bicho com defunto… Até que é bem bolado. E o dono topa? É bem bolado, hein! Negócio é joia. Sabe que tu tá ficando inteligente? Eu acho que é a convivência comigo. 


3  - Um quatrocentão paulista, cheio de tradição, marcou a carreira de Paulo Gracindo, pela interpretação sofisticada como Antenor em Os ossos do barão, de Jorge Andrade. O personagem era ápice do conflito de gerações e se debatia com a mudança dos costumes.

ANTENOR — Eu vou acabar com essa estrangeira toda na minha família!

4 - O coronel, símbolo maior do poder feudal da obra de Jorge Amado, esteve nas mãos de um ator que o enriqueceu de contradições, afastando a possibilidade de torná-lo um vilão estereotipado. O sofrimento dele diante das regras severas que impõem à neta Gerusa é um dos grandes trunfos da novela.



RAMIRO BASTOS — Me perdoe, minha neta. É isso mesmo, é como se diz, a vida não é mais do que isso. É só fazer sofrer os que mais a gente ama. 

 5 - Uma das novelas mais engenhosas dos anos 1970, O casarão, de Lauro César Muniz, deu a Paulo Gracindo um personagem rico de afetos. João Maciel era um boêmio apaixonado pela vida, que amava ternamente, na velhice, Carolina (Yara Cortes) 
 
JOÂO MACIEL — Eu vim a esta cidade à procura de uma verdade. Eu vim em busca de mim mesmo, de uma sensação de felicidade que ficou perdida no tempo. Uma sensação que eu tenho em plena consciência de que existiu e que nunca mais eu pude… curtir.
 
    
 UM SÉCULO DE PAULO GRACINDO

De Gracindo Júnior e Mauro Alencar. Gutenberg Editora. 256 páginas. R$ 57.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Thelma Reston, uma atriz de todos os tempos


Ícone da obra de Nelson Rodrigues,  ela passou por grupos que renovaram o teatro nacional


Sérgio Maggio

Foto: TV Globo/Divulgação
Na ativa, Thelma Reston tinha acabado de brilhar no teatro e na tevê: vida dedicada à arte 

Thelma Reston estava feliz com os mimos profissionais colhidos em uma vida dedicada ao ofício de atriz de teatro, de cinema e de televisão. A última personagem de novelas, Dona Violante, de Aquele beijo, a enchia de orgulho. A cada capítulo, a velha senhora crescia em cena a ponto do autor Miguel Falabella ter que aumentar mais e mais a sua participação. “Ele está escrevendo mais falas para mim. Adoro. Aliás, aquele núcleo dos gordos é maravilhoso. São atores fantásticos”, comentava. Thelma era assim, extremamente generosa com antigos e novos amigos. Se alguém ligava para ela com um convite de trabalho e por algum motivo ela não podia fazer, rapidamente sugeria alguma substituta à altura. Esse companheirismo era uma das marcas dessa grandiosa atriz goiana, que morreu ontem aos 73 anos, vítima de câncer.
Durante as gravações de Aquele beijo, Thelma chegou a ser afastada. Tinha passado por uma cirurgia no útero, mas se recuperava bem. “Falei com ela faz pouco tempo. Estava ótima, bem-humorada e cheia de energia. No começo de 2013, íamos fazer, aqui no meu apartamento, a leitura do roteiro de Cabaré das Donzelas Inocentes”, conta o cineasta Dannon Lacerda, referindo-se ao primeiro longa-metragem dele, no qual ela teria um papel de destaque.
A morte de Thelma Reston pegou a todos de surpresa. “Minha amiga de tantos anos foi pro andar de cima. Ainda pude homenageá-la em Aquele beijo, na qual ela fez a hilária Dona Violante, a ladra contumaz. Eternas saudades desse seu amigo, que hoje apenas recolhe as lembranças de toda uma vida e chora”, lamentou Miguel Falabella em seu perfil no Facebook.
Neste ano, centenário de Nelson Rodrigues, Thelma Reston era uma das personalidades mais requisitadas para entrevistas e participações em palestras. Ela foi uma atriz que passou por quase todas as estreias da dramaturgia do autor de Vestido de noiva. Ela estava lá, em 1960, em A falecida, numa ousada direção de Rubens Corrêa. “Há uma predestinação que traz Thelma Reston para o meu teatro e meus filmes. Posso dizer que ela percorreu meus textos. Faço também questão de confessar que sou seu admirador há muito tempo. Bem sei que o brasileiro admira pouco. Não tenho este defeito horrendo. Admiro Thelma Reston e cada vez mais. Direi, por fim, que é uma grande atriz”, avaliava Nelson Rodrigues.
Os filmes baseados na obra de Nelson Rodrigues também foram palco para Thelma Reston brilhar. Em Os sete gatinhos, de Neville D’Almeida, ela fez A Gorda. E é dona de uma das cenas antológicas na cinematografia nacional ao se revelar quem era o verdadeiro autor dos “caralhinhos de asas” desenhados na parede da casa. Fez ainda Terra transe, de Glauber Rocha, numa filmografia ímpar com mais de 40 obras.

Revolucionária

Thelma Reston é uma atriz que está na base da renovação do teatro brasileiro. Estreou sob a direção de duas divas, Dulcina de Moraes e Henriette Morineau, com Tia Mame, em 1959. Depois, lançou-se nos palcos como os novos, passando pelos grupos Teatro Ipanema, de Rubens Corrêa e Ivan Albuquerque; Centro Popular de Cultura (CPC), Teatro Jovem, Grupo Opinião e Teatro Oficina. Intuitiva e autodidata, era uma atriz desejada por diretores do porte de Ziembinski, Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha, Martim Gonçalves e Flávio Rangel. Entre as dezenas de montagens, estão as históricas O balcão, de Jean Genet, com produção de Ruth Escobar e direção de Victor Garcia; O casamento do pequeno burguês, de Luis Antônio Martinez Corrêa; e A Ópera do Malandro, de Chico Buarque.
Mesmo cobiçada pelo cinema e pela tevê, seguiu firme no teatro, trabalhando, nos anos 1970, na Companhia de Dina Sfat, que a tinha como uma atriz “pé de coelho” e uma amiga de todas as horas, da qual não podia abrir mão. O último trabalho nos palcos foi em A cantora careca (2011), dirigido pela amiga Camila Amado e com outra “irmã” em cena, Maria Gladys. A peça fez temporada de casa cheia no Rio o que deixou Thelma Reston em estado de graça.